quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Cinema visto pela História: notas sobre o desenvolvimento de um campo

O século XX foi transformado pelo Cinema e o campo historiográfico não ficou imune. As imagens projetadas pelos cinematógrafos ao redor do mundo criaram uma arte e uma indústria – e uma nova forma de pensar a História.

Por Rafael Hansen Quinsani
Quando o Cinema passou a frequentar a sala de aula, pipocaram reclamações sobre a “concorrência desleal” e o aumento da responsabilidade dos professores, que agora precisavam “corrigir os filmes” que ameaçavam a “História verdadeira”. A ideia de que os historiadores têm o trabalho de expor os fatos do passado, de preferência “como realmente aconteceram” (fórmula famosa – e por vezes mal-compreendida – utilizada pelo historiador alemão do século XIX, Leopold von Ranke)1, obliterou o olhar sobre as formas narrativas, sua constituição e tensões.
Quando se rompe o isolamento da História com o Cinema, contudo, percebemos que o exame do discurso histórico a partir de outras formas narrativas não só levanta questões inquietantes, mas também pode enriquecer o conhecimento do meio acadêmico. Dessa forma, questionamentos sobre a construção do sentido do passado, a constituição visual das sociedades modernas e o relacionamento de múltiplas temporalidades tornam o debate mais complexo e frutífero. Neste artigo, pretendo historicizar marcos da relação História-Cinema, analisando as mudanças que se passaram e as diferentes contribuições para as reflexões do nosso tempo.
A construção da relação Cinema-História
A história cinematográfica foi se constituindo paulatinamente ao longo do século XX, tecendo relações com o campo acadêmico e social. A reflexão sobre o cinema teve início com os seus próprios realizadores, uma tradição filosófica que pode ser caracterizada como formativa, pois não havia precedentes na sua realização. Após a década de 1920, as reflexões começam a valorizar os elementos artísticos do cinema e ampliando a reflexão para além dos elementos técnicos2. Neste momento, vinham do Oriente novas teorias que revolucionariam o pensamento sobre o cinema.
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Cinema e História: uma relação há estabelecida. Foto: Pixabay.
No início do século, a União Soviética (URSS) foi responsável por centralizou análises inovadoras centradas na questão da montagem cinematográfica. O encadeamento de fotogramas se compunha como centro da construção da linguagem cinematográfica, influenciando roteiros, cenários e atuações. Foi Lev Kuleshov o primeiro teórico que sistematizou os fatores constitutivos da teoria da montagem, formulada a partir de observações empíricas sobre a reação da plateia a filmes de diferentes nacionalidades. Mas sem dúvida, o grande nome da teoria da montagem foi Sergei Eisenstein. Seus livros mais conhecidos são A forma do filme e O sentido do filmeEisenstein concebia a cinematografia antes de tudo como montagem. Ele, inclusive, procurava identificar o princípio básico da montagem cinematográfica fora do cinema, como, por exemplo, os elementos que constituem a cultura visual japonesa e a constituição dos hieróglifos da poesia do Haikai.
Em pouco tempo, a ampla penetração do cinema em diversas classes sociais atraiu para si o interesse do campo científico. Retornando para a Europa, o foco se deslocou para o viés realista, que tratou de questionar as posições formalistas. Na França, o crítico André Bazin valorizou o poder das imagens registradas mecanicamente e deu início a uma tradição crítica que seria o berço das futuras reflexões dos anos 1960, como a revista Cahiers du cinema.
Oriundo da chamada Escola de Frankfurt, (corrente de pensadores que articularam uma crítica social a partir do Marxismo e da psicanálise) Siegfried Kracauer (1899-1966) foi um dos mais destacados nomes a trabalhar com o cinema. Sua obra “De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão” e os vastos volumes de “Theory of Film” foram seminais na divulgação dos estudos sobre cinema. A análise de Kracauer estava ancorada pelo referencial da ideologia, e sua obra “De Caligari a Hitler” busca compreender como os filmes podem representar uma mentalidade coletiva de uma nação tomando como exemplo a Alemanha dos 1930 e a formação do nazismo. Ao registrar aquilo que é da ordem do visível, o cinema permite encontrar uma chave de acesso ao oculto e a uma mentalidade. Estudando diversos filmes alemães, Kracauer buscou demonstrar nos figurinos, nos cenários, na fotografia, na constituição do roteiro elementos que prenunciavam a formação do nazismo na sociedade alemã.
Na década de 1970, por sua vez, o historiador Marc Ferro (1924-) revolucionou a abordagem do tema ao dar início ao que podemos denominar de campo Cinema-História. Sua proposta tinha como eixo uma metodologia e ainda trazia eco da presença da ideologia das análises marxistas ao propor a realização de uma contra-análise da sociedade pelo Cinema. Para Ferro, o filme não é só um produto, mas um agente da história, porque a imagem cinematográfica vai além da ilustração: no seu verso está expressa a ideologia dos realizadores e da sociedade. Constitui-se, então, a contra- análise, que busca desvelar o não visível, os silêncios selecionados pela história e pelo historiador. Na sua proposta, a ideologia encontra-se na base de sustentação do conteúdo apresentado por um filme. Real e ficção se formam e transitam a partir destas bases. A análise do conteúdo aparente de suas imagens e sua crítica a partir do cruzamento de outras fontes permite desvelar o conteúdo latente, a zona de realidade não visível, composta pelos elementos transpostos conscientemente ou inconscientemente pelos realizadores do filme. Também salienta que, além de tornar-se um agente, o cinema também motiva a tomada de consciência histórica, criando uma memória fílmica.
Historiador da Revolução Russa, Ferro não teve em um primeiro momento uma boa acolhida ao querer se dedicar ao Cinema. O historiador francês Fernand Braudel chegou a desestimulá-lo. Entretanto, seu ensaio “O filme, uma contra-análise da sociedade?”, publicado no famoso periódico Annales, lançou as bases de uma revolução.
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Cena do filme “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Sergei Eisenstein – Reprodução
Contudo, ainda era uma revolução conservadora, pois a relação Cinema-História foi recortada a partir do lugar disciplinar, e esta operação historiográfica definiu o objeto segundo padrões de pertencimento dos historiadores. Havia o temor, o preconceito e a preguiça de traçar um diálogo com as questões estéticas e os campos que a abordavam. Da ideologia ocorreu um deslocamento para o emprego do conceito de representação, alavancado pelo avanço da História Cultural. Todavia, o conservadorismo ainda marcava fortemente a disciplina histórica e o temor dos elementos estéticos também marcava este novo campo.
Foi ao longo das décadas de 1980 e 1990, e, principalmente, do século XXI, que os elementos estéticos cinematográficos ganharam corpo nas análises realizadas. Como exemplifica o professor Francisco das Chagas Júnior: “Expulsa pela porta, a estética entra pela janela como um espectro que redefine os territórios dos historiadores”.
Contribuições para a sala de aula
Mais recentemente, o historiador norte-americano Robert Rosenstone tem dado grandes contribuições para o aprofundamento do campo e o fomento do debate. Partindo de experiências da sala de aula e da participação na realização de documentários e ficções, Rosenstone aponta que a possível concorrência da visão histórica cinematográfica na busca por alcançar a sociedade é o principal fator para os historiadores temerem o cinema. Um filme narra, explica e apreende acontecimentos individuais, coletivos, sociais, psicológicos e históricos. Seu objetivo é entreter, mas na sua constituição faz uso de argumentos racionais e de todos os ingredientes da vida, das carências de orientação do ser humano.
Portanto, segundo Rosenstone, para além da análise do cinema como atividade artística e do filme como documento, o cerne do questionamento deve partir de como o meio audiovisual pode nos fazer refletir sobre nossa relação com o passado, sendo pensado como uma nova forma de reconstrução histórica capaz de alterar a concepção e o conceito de História que temos. Isso implica aceitar que o cinema pode transmitir o tipo de História com H maiúsculo. “Trata-se de uma questão arriscada, pois mudar a mídia da história significa mudar igualmente a mensagem […] o passado contando por imagens em movimento, não elimina as antigas formas de história”.
Compreender a constituição da narrativa, a importância dos elementos estéticos e as conexões entre razão e emoção torna-se, assim, fundamental para enriquecer o campo teórico, integrar a ciência ao campo social e se pensar historicamente o século XXI. 
Nesse sentido, pesquisas e iniciativas como as do crítico de cinema francês Alain Bergala, que defende a presença da sétima arte nas escolas não só para explorar técnicas de produção e conteúdos curriculares, mas para discutir também questões universais, inserem a educação cinematográfica e a produção de obras como fundamentais para a inovação da educação do século XXI. No Brasil já surgem diversas iniciativas para potencializar a produção cinematográfica na escola. O projeto “Primeiro filme” da produtora Prana filmes realizou diversas oficinas de capacitação com professores e estudantes, inclusive oferecendo material didático e organizando um festival com obras realizadas nas escolas do Rio Grande do Sul. Neste Estado, munícipios como São Leopoldo e Alvorada realizam festivais de cinema com filmes produzidos nas redes escolares.
Avanço nos estudos, mas pouco traduzidas para o português
Pensar a relação Cinema-História como um paradigma permite refletir sobre o próprio meio acadêmico e arejar uma disciplina ainda conservadora. A escrita cinematográfica possibilita uma linguagem capaz de, na sua exposição, fundir dialeticamente a multiplicidade dos tempos históricos, auxiliando os historiadores a ampliar sua capacidade de produzir conhecimento e potencializar sua transmissibilidade.
Nos últimos anos, foram formadas cátedras, disciplinas, linhas de pesquisa relacionadas ao tema em diversas universidades em vários cantos do mundo. Autores como Pierre Sorlin, Michele Lagny, Jorge Nóvoa, Alcides Freire Ramos, Eduardo Morettin realizaram trabalhos fundamentais. Contudo, muitos trabalhos estrangeiros ainda não foram traduzidos para o português. Um exemplo é a obra “Writing history in film, de William Guynn. “Escrever a História em filme”, como apresenta o título (em tradição para o português), implica pensar um novo patamar da relação Cinema-História: a questão da narrativa, da pesquisa e a relação do campo acadêmico com os demais meios de produção historiográficos.
Esperamos que mais obras sobre o tema sejam traduzidas para que enriqueçam nossas discussões e práticas – dentro e fora da sala de aula. Mas neste breve artigo, já deixo um convite para que nós, historiadores, especializados ou não em Cinema, Arte e Cultura, nos aproximemos da cinematografia de temática histórica. E sem medo.

Notas
A ideia de “mostrar o que realmente aconteceu” foi usada por Ranke no livro “História dos povos latinos e germânicos de 1494 a 1514”. Júlio Bentivoglio, no entanto, lembra que Ranke jamais se limitou a produzir uma história factual ou sugeriu que os fatos falassem falavam por si só. Joseph Fontana também defende Ranke, dizendo que “a frase foi tirada de contexto injustificadamente e interpretada como uma declaração metodológica” (In: Lições de História, de Jurandir Malerba). A frase completa é: “A história escolheu para si o cargo de revelar o passado e instruir o futuro para benefício das gerações futuras. Para mostrar aos altos oficiais o que o presente trabalho não pressupõe: ele busca apenas mostrar o que realmente aconteceu”.
2 Já em 1916 Hugo Munsterberg publica a obra The Photoplay: a psychological study. Sua análise divide as observações sobre o cinema entre a história tecnológica e a evolução do uso do cinema.

Referências Bibliográficas
FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
GUYNN, William. Writing history in film. New Tork: Routledge, 2006.
JÚNIOR, Francisco das Chagas Fernandes Santiago. Entre a representação e a visualidade: alguns dilemas de relação cinema-história. Domínios da Imagem, Londrina, n. 1, p. 65-78, 2007.
KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LAGNY, Michele. Cine e História: problemas y métodos en la investigación cinematográfica. Barcelona: Paidós, 1997.
MALERBA, Jurandir (Ed.). Lições de história: o caminho da ciência no longo século XIX. EDIPUCRS, 2010.
NÓVOA, Jorge; BARROS, José D’Assunção. (orgs) Cinema-História: teoria e representações sociais no cinema. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.
NÓVOA, Jorge; FRESSATO, Soleni Biscouto; FEIGELSON, Kristian. (orgs) Cinematógrafo: um olhar sobre a História. Salvador: EDUFBA/UNESP, 2009.
RAMOS, Alcides Freire. Canibalismo dos fracos: cinema e história do Brasil. Bauru: EDUSC, 2002.
ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
SORLIN, Pierre. Sociología del cine: la apertura para la historia de mañana. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1985.

Rafael Hansen Quinsani é professor, Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem atuação na área de Docência e Pesquisa. Dedica-se a área de Cinema-História, Ensino de História, Teoria e Metodologia, História da América Latina e História contemporânea.

Como citar este artigo
QUINSANI, Rafael Hansen. O Cinema visto pela História: notas sobre o desenvolvimento de um campo. (Artigo) In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/cine-historia/. Publicado em: 25 dez. 2017. Acesso: [informar data].

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Publicação sobre mulheres tem capítulo da profa. Marlise Meyrer

Mulheres em Movimento: experiências, conexões e trajetórias transnacionais.
/ Organizadoras: Maíra Ines Vendrame e Syrléa Marques. A divulgação e vendas iniciarão em janeiro.

Sumário
Prefácio .................................................................................. 7
Ana Silvia Volpi Scott
Apresentação ........................................................................13
Maíra Ines Vendrame
Syrléa Marques Pereira
Mulheres e migrações na Itália entre passado e presente ........27
Paola Corti
Olhar-se no espelho. Quando os migrantes eram
toscanas e toscanos ...............................................................51
Adriana Dadà
A emigração das mulheres da Itália entre o 800 e o 900:
alguns estudos de caso na região da Toscana .........................63
Lucilla Briganti
Donas do próprio destino?: Experiências transnacionais
de imigrantes italianas no Brasil Meridional ..........................85
Maíra Ines Vendrame
Maria e la collana. L’emigrazione di una donna dalle
Dolomiti al Brasile .............................................................. 134
Daniela Perco
A presença das mulheres na economia da zona
colonial italiana no Rio Grande do Sul ................................ 208
Vânia B. Merlotti Herédia
Corpos (in)disciplinados em movimento: gênero e etnia
na imigração alemã (sul do Brasil, séculos XIX-XX .............223
Daniel Luciano Gevehr
Marlise Regina Meyrer
6
“Podes vir que aqui estou à tua espera”: Gênero, família
e literatura epistolar (e/imigrantes portugueses
– São Paulo 1890-1950) ....................................................... 251
Maria Izilda Santos de Matos
As mulheres madeirenses nas cartas de chamada
(Brasil, 1893-1925) .............................................................. 274
Nelly de Freitas
Luzes, sombras e (in)visibilidades: francesas e
portuguesas no Rio oitocentista ........................................... 299
Lená Medeiros de Menezes
Migrantes, retornadas ou refugiadas? Memórias femininas
sobre a experiência do deslocamento migratório no
contexto da descolonização da africana ............................... 326
Roseli Boschilia

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Viagem de Estudos ao Distrito de Evangelista – Casca/RS





No dia 09 de dezembro (sábado) parte do grupo do Núcleo de Estudos
Históricos do Mundo Rural (NEHuR) realizaram uma viagem de estudos ao
Distrito de Evangelista – Casca/RS.
O lugar reserva uma culinária típica dos imigrantes italianos, bem como
passeios pelo Museus Luigi Pinzeta, tour rural por cascatas, trilhas ecológicas
todas feitas de trator.

“O Distrito de Evangelista, foi colonizado no início do século XX por
imigrantes italianos vindo das primeiras colônias da serra gaúcha, fazendo
parte então da colônia de Guaporé. Possui relevo colinar a uma altitude média
de 600m, clima temperado e vegetação intermediária entre Araucárias e Mata
Atlântica. Teve grande desenvolvimento entre as décadas de 20 e 50
principalmente com a instalação de várias agroindústrias, comércio e serviços,
porém com a falência do Frigorífico Guaporense houve desesperança para a
população, sendo que posteriormente a este fato ninguém mais investiu na
vila”. (FONTE: http://www.dicolori.com.br/site/index.php/evangelista/)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Tudo de novo no front: a “nova historiografia” da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Desde a década de 1940, escreve-se sobre a Segunda Guerra Mundial e seus reflexos no Brasil. Contudo, nos últimos dez anos tem ocorrido um importante processo de ampliação e revisão dos estudos historiográficos sobre o tema, especialmente, a respeito da Força Expedicionária Brasileira (FEB).
Por Wilson de Oliveira Neto
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) é um tema fascinante. Quando lecionava no Ensino Fundamental, a primeira pergunta que boa parte dos meus alunos me fazia era “quando estudaremos a Segunda Guerra Mundial”? Desde a época do conflito, há uma interminável produção de imagens e textos escritos sobre a guerra, especialmente, por parte da “indústria cultural”. Ao examinar a produção bibliográfica a respeito da experiência brasileira no conflito, o historiador Francisco Cesar Alves Ferraz chegou ao impressionante número de 1092 títulos publicados entre 1945 e 2015.

Soldados da FEB sendo saudados por moradores de Massarosa. Final de setembro, 1944. Foto: Durval Jr, Wikipedia.

Nos últimos dez anos, contudo, está em curso no Brasil um processo de ampliação e revisão dos estudos históricos sobre o país no contexto da Segunda Guerra Mundial, com destaque para a experiência militar brasileira na Campanha da Itália através da FEB. O que há de novo nesse front? Nesta bibliografia comentada, procurarei responder essa pergunta através do exame de um conjunto de obras de referência lançadas, principalmente, a partir de 2010. Espero que ela possa ajudar você!
“Barbudos, sujos e fatigados, do alto de uma montanha recém-tomada, os homens do III Batalhão do Regimento Sampaio olhavam para a densa cordilheira apenina que se descortinava adiante”, descreve Cesar Campiani Maximiano, na introdução do livro “Barbudos, sujos e fatigados”. Descendente de veteranos da Revolução Constitucionalista de 1932 e da FEB, colecionador e autor, Maximiano é reconhecido como uma das principais autoridades sobre História da Força Expedicionária Brasileira e na afirmação da História Militar como um campo de estudos históricos no Brasil. Embora lançado em 2010, Barbudos, sujos e fatigados é o resultado de anos de pesquisa, cujas origens estão situadas na década de 1990. Na obra, suas principais fontes são depoimentos coletados entre os veteranos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tiveram experiência direta em combates. 1 No livro, eles são contextualizados e analisados através de um profundo conhecimento sobre História Militar brasileira e sobre a Segunda Guerra Mundial, o que permitiu ao autor refutar antigos e arraigados lugares-comuns sobre a FEB, tais como a atribuição das falhas no adestramento dos expedicionários à doutrina militar francesa, vigente no exército brasileiro da época, ou a ideia de que a proximidade entre praças e oficiais da FEB foi resultado da influência do exército americano ao qual a FEB estava subordinada. A narrativa de Maximiano revela o domínio que o autor tem sobre a bibliografia e as fontes históricas a respeito da FEB. Essa qualidade possibilitou ao autor, por exemplo, criticar as “partes de combate”, registros oficiais feitos nos Boletins Internos da FEB2, muitas vezes distantes da experiência dos expedicionários que protagonizaram as ações de combate em que a 1ª DIE esteve envolvida.
A Segunda Guerra Mundial foi encerrada no começo de maio de 1945. Imediatamente, a FEB foi desmobilizada pelo governo brasileiro da época através de uma decisão política que não afetou somente a profissionalização do Exército, como também a reintegração social dos próprios ex-combatentes. Com o fim do conflito, a desmobilização dos expedicionários e o retorno deles ao Brasil, que fim eles levaram?  Quem responde a pergunta é Francisco Cesar Alves Ferraz, no livro “A guerra que não acabou”, lançado em 2012, que narra o processo de reintegração social dos ex-combatentes da FEB. “A Segunda Guerra Mundial chamou mais a atenção dos brasileiros, mas nunca se tornou o ponto de referência histórico como o foi na Europa e nos Estados Unidos”, explica o autor. Esse fato influenciou na forma como ex-combatentes, Estado e sociedade brasileiros se relacionaram ao longo das décadas seguintes à guerra. Tal como Maximiano, Ferraz é uma das principais referências sobre a História da FEB e seu livro envolveu o exame de uma diversificada documentação, produzida, especialmente, pelas associações de ex-combatentes espalhadas pelo país. O resultado é uma narrativa a respeito do labirinto de leis que não ajudou a reintegração social dos ex-combatentes; da forma como o Exército ignorou as experiências dos seus efetivos que foram à guerra; das origens e da trajetória do associativismo entre ex-combatentes e suas disputas políticas; e das relações entre os expedicionários e a memória. Esse último aspecto chama a atenção, pois uma das estratégias de reintegração social foi a valorização da experiência militar da FEB na Itália, através da preservação, divulgação e valorização da memória. Neste contexto, os ex-combatentes se tornaram “agentes da memória”, em um processo que envolveu o próprio Exército, especialmente, durante o Regime Militar (1964–1985). Para Ferraz, isto influenciou no modo como algumas obras produzidos no período da redemocratização construíram uma imagem caricaturada da FEB, como é o caso do livro As duas faces da glória”, do jornalista William Waack e o filme “Rádio Auriverde”, de Sylvio Back, lançados, respectivamente, em 1985 e 1991. O autor aponta que “ambos miraram na FEB, para acertar um alvo maior e mais poderoso, o regime militar inaugurado em 1964”. Neste sentido, o trabalho de Francisco César Alves Ferraz também é um significativo trabalho a respeito da memória como um campo de disputas.
E por que o Brasil foi à guerra? Ok, Ricardo Seitenfus, em “O Brasil vai à Guerra” tem razão quando afirma que, dificilmente, um país periférico e fornecedor de commodities permaneceria neutro por muito tempo diante de um conflito militar tão amplo quanto a Segunda Guerra Mundial. Mas quais foram as circunstâncias que levaram à assinatura da declaração brasileira de guerra, em 31 de agosto de 1942? A resposta é a série de ataques de submarinos do Eixo contra os navios da marinha mercante brasileira ocorrida durante o primeiro semestre de 1942. Esse fato é consenso entre os autores que estudam o envolvimento do país no conflito como a razão imediata para a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha e a Itália. Porém, ainda é possível ouvir por aí uma versão que ficou muito difundida no senso comum de que foram submarinos americanos que atacaram os navios brasileiros, em 1942, como uma maneira de forçar o país a entrar na guerra. Ouso afirmar que a refutação definitiva à essa opinião se encontra no livro “Operação Brasil”, escrito por Durval Lourenço Pereira e lançado em 2015.

General alemão Coronel Otto Von Kleiber se rendendo à tropa brasileira em abril de 1945. De costas para o fotógrafo, o Capitão Franco Ferreira. Foto: Sívio S. da Fonseca, Wikipedia. 

O título decorre de um plano organizado pela Marinha de Guerra alemã contra o Brasil, que acabaria com a navegação de cabotagem no país, colocando em grave risco sua segurança. Embora redigido, sua execução nunca ocorreu, pois foi vetado pelo próprio Hitler. Ao narrar as circunstâncias em que ocorreu a declaração brasileira de guerra, o autor promove uma revisão de diversos aspectos dessa História que eram aceitos pelos estudiosos sem a devida crítica. Por exemplo, é comum considerar o General Góis Monteiro (1889-1956), chefe do Estado-Maior do Exército durante o Estado Novo, um militar “germanófilo”, simpatizante da Alemanha e do seu regime nacional-socialista. Porém, Pereira revela que tal rótulo foi imposto ao General pela imprensa americana, pois este, junto com o General Eurico Gaspar Dutra, negociou com dureza o envolvimento do Brasil na guerra em troca do fornecimento de material bélico moderno pelos Estados Unidos, através do Lend-and-Lease. Contudo, certamente, um dos aspectos mais importantes do livro é a comprovação documental de que foram submarinos alemães que atacaram e afundaram os navios mercantes brasileiros durante o primeiro semestre de 1942. Para tanto, o autor consultou a documentação produzida pela Kriegsmarine através do seu comando de operações. Com riqueza de detalhes, ele descreveu as ações contra a marinha brasileira, refutando as especulações que existem desde a década de 1940 sobre o assunto.
As décadas de 1930 e 1940 foram marcadas pelo esforço do comando militar brasileiro em profissionalizar e modernizar seus recursos humanos e materiais. É nesse contexto que a política dos Generais Góis Monteiro e Dutra deve ser compreendida. Isso fica claro quando é estudada a história dos carros-de-combate no Brasil, conforme narra o livro “Extermine o inimigo”, de 2015, cujo autor é Dennison de Oliveira. A obra faz parte de um conjunto de produções, entre artigos e livros, com destaque para o livro “A aliança Brasil-EUA: nova história do Brasil na Segunda Guerra Mundial”, também lançado em 2015, decorrente do pós-doutorado do autor, que, através do estudo de documentação inédita de origem norte-americana, intensificou o processo de ampliação e renovação dos estudos históricos sobre os reflexos da Segunda Guerra Mundial no Brasil. No livro, Oliveira descreve e contextualiza a criação da primeira divisão blindada do Exército brasileiro e a experiência em combate motorizado adquirida na Campanha da Itália pelo Esquadrão de Reconhecimento da FEB, comandado pelo então Capitão Plínio Pitaluga (1910-2002), cujas memórias são o fio condutor da obra. , que envolveu o estudo de documentos brasileiros e americanos, disponibilizados pelo autor em links para arquivos disponíveis no Google Drive. Trata-se de uma “história hipertextual”, pois o autor disponibilizou documentos brasileiros e americanos por meio de links do Google Drive, permitindo ao leitor conferir as fontes usadas por Oliveira.

Série de selos postais alusiva à vitória aliada na Europa, em 8 de maio de 1945. No Brasil, os selos postais são uma importante fonte sobre a memória a respeito da FEB. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Há diversos aspectos na obra que chamam a atenção, porém vale destacar dois: 1. Apesar do fornecimento maciço de blindados pelos Estados Unidos, tanto a falta de infraestrutura industrial como a de recursos humanos especializados foram sérios obstáculos à formação da primeira divisão blindada do exército, criada somente em 1957; 2. A atuação do Esquadrão de Reconhecimento da FEB durante o final de abril de 1945, na região de Fornovo di Taro, em uma missão de procurar e destruir a 148ª Divisão de Infantaria alemã, que resultou em um dos fatos mais notáveis da Campanha da Itália: a captura pela FEB de uma divisão de infantaria inteira, com quase 15 mil homens. Como afirma o autor, a tropa brasileira, bem adestrada, municiada e posicionada, estava a “exterminar o inimigo” quando houve a rendição da 148ª DI, entre 29 e 30 de abril de 1945. No livro, esse fato foi descrito com detalhes e reforça a ideia de que, apesar das deficiências iniciais de treinamento, a 1ª DIE se tornou, ao final do conflito na Itália, uma força combatente tão capaz e feroz quanto as demais sob o comando do 5º Exército americano. Na Itália, a FEB cumpriu todas as missões a ela confiada. Extermine o inimigo narra, possivelmente, a mais significativa dessas missões.
2017, um ano de lançamentos.
Cabe finalizar essa pequena orientação bibliográfica com quatro lançamentos da área em 2017. Obras inovadoras, sendo três delas resultados de trabalhos de pós-graduação em História: “Morrer na guerra”, de Adriane Piovezan, “O Piauí em tempos de Segunda Guerra”, de Clarice Helena Santiago Lira, “O triunfo da persuasão”, de Alexandre Busko Valim, e “Seduções impressas”, de Aline Vanessa Locastre.
Essas obras narram a História da Segunda Guerra Mundial sob a óptica brasileira e vão ao encontro das conclusões de Francisco Cesar Alves Ferraz: “há uma crescente produção envolvendo grupos maiores e mais diversificados de pesquisadores e autores e, por fim, mas não menos importante, um estimulante conjunto de abordagens mais interessantes, complexas e melhor fundamentadas”.

Notas
1 Quando do seu envio ao teatro de operações italiano, a FEB estava organizada na seguinte forma: 1ª Divisão de Infantaria Divisionária; Depósito de Pessoal; Órgãos Não-Divisionários. Os expedicionários que estiveram em combate pertenceram à 1ª DIE. Portanto, nem todo “pracinha”, mesmo que enviado à Itália, participou de ações de combate, entre 1944 e 1945.
2 Um “Boletim Interno” é um registro escrito produzido pelos setores de intendência de uma organização militar e é conhecido como “S4”. É produzido diariamente, como uma espécie de “diário” acerca dos fatos ocorridos. Em um contexto de guerra, são registradas as operações militares no item “partes de combate”. Há uma versão “reservada” chamada BIR – Boletim Interno Reservado, que é produzida pelos órgãos de inteligência e segurança das organizações militares, os “S2”.

Referências Bibliográficas

Wilson de Oliveira Neto é Doutorando em Comunicação e Cultura na ECO/UFRJ. Professor e pesquisador no curso de História da Universidade da Região de Joinville – Univille. Autor de trabalhos sobre o nordeste de Santa Catarina no contexto da Segunda Guerra Mundial e as relações entre guerra e fotografia, com destaque para o livro O Exército e a cidade, escrito em coautoria com Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes e Marília Gervazi Olska, lançado em 2008, pela editora da Univille. E-mail: wilhist@gmail.com.

Como citar essa Bibliografia Comentada
NETO, Wilson de Oliveira. Tudo de novo no front: a “nova historiografia” da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. (Bibliografia Comentada). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/nova-historiografia-brasil-na-guerra/.Publicado em: 4 dez. 2017. Acesso: [informar data].

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Lançamento de livro da profa. Marlise!

Representações do desenvolvimento nas fotorreportagens 

da Revista O Cruzeiro (1955-1957)

Autora:
Marlise Regina Meyrer
  

  




Ano: 2017
Páginas: 318
ISBN: 978-85-523-0023-6
Palavras-Chave: O Cruzeiro (revista) - História e crítica, Imprensa - Brasil - História,  Fotojornalismo, Comunicação de massa
Área do conhecimento: História
Este livro é fruto de tese apresentada como requisito para obtenção do Grau de Doutor em História, pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, defendida no ano de 2008. De lá para cá, a autora tem aprofundado seus questionamentos sobre os pontos neste livro tratados, produzindo novas reflexões, em arte publicadas em revistas acadêmicas. Entretanto, a base desses estudos continua sendo
a tese, transformada neste livro, que discute alguns princípios fundamentais para o entendimento da imprensa, em especial do fotojornalismo, na construção e difusão de representações sociais que orientam formas de ver e agir sobre o mundo social.
Boa leitura!