domingo, 27 de agosto de 2017

1953: Concordata entre Franco e Santa Sé

Assinada concordata entre Santa Sé e Madri, permitindo ao regime do ditador espanhol Franco romper seu isolamento internacional. Além de militares e latifundiários, a Igreja foi um dos baluartes da ditadura franquista.
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Franco durante parada em celebração ao fim da Guerra Civil na Espanha, em maio de 1939
Em 1939, o ditador espanhol Francisco Franco proclamou o fim da guerra civil, que durara três anos. E classificou sua vitória sobre as tropas republicanas como um triunfo do cristianismo.
Numa missa de ação de graças na Igreja de Santa Bárbara, em Madri, Franco depositou simbolicamente sua espada diante do altar: "Senhor, aceite de bom grado os esforços deste povo, que sempre lhe pertenceu e que, comigo e em vosso nome, venceu com grande heroísmo o inimigo da verdade neste século. Dai-me a vossa ajuda para conduzir este povo à completa liberdade do vosso reino, para a vossa glória e a glória da vossa Igreja".
E, de fato: à parte de raras exceções, a Igreja Católica da Espanha estava em peso do lado dos golpistas de Franco. Portanto, houve enorme satisfação, quando o "generalíssimo" assumiu o poder no país, em 1939.
Também o recém-eleito papa Pio 12 congratulou o ditador vitorioso de maneira efusiva: “Elevando o nosso coração a Deus, juntamente com Vossa Excelência, expressamos nossa profunda gratidão pela vitória que ansiávamos, da Espanha católica. Desejamos que, depois de lograr a paz, esse país – que nos é tão caro – dê nova força à sua velha tradição católica, que o fez tão grande. Concedemos Vossa Excelência e a todo o nobre povo espanhol nossa bênção apostólica”.
Baluartes do franquismo
Ao lado dos militares e dos latifundiários, a Igreja continuou sendo um dos principais baluartes da ditadura franquista – mesmo quando o país foi internacionalmente boicotado, após o término da Segunda Guerra Mundial. A maioria das nações retirou seus embaixadores da Espanha e a ONU recusou a filiação espanhola.
Mas, no início da década de 1950, em face da Guerra Fria, o boicote começou a se desfazer paulatinamente. Os Estados Unidos iniciaram negociações para uma cooperação econômica e militar com a Espanha.
Esta era a situação internacional, quando a Santa Sé assinou uma concordata com o Estado espanhol em 1953. A concordata – uma espécie de tratado entre a Santa Sé e o governo do país signatário – regula as questões de política eclesiástica, por exemplo, os limites das dioceses, a ocupação das cátedras episcopais, mas também assuntos relacionados às leis matrimoniais, à educação ou às ajudas financeiras do Estado para o trabalho da Igreja.
Prerrogativas da Igreja Católica
Na concordata de 1953, a Igreja e o Estado espanhol fizeram amplas concessões mútuas. A Igreja recebeu privilégios extraordinários de Franco. O catolicismo foi designado como única religião da Espanha. Foi concedida à Igreja Católica uma enorme influência na área educacional, nas escolas e nos currículos escolares. Dificultou-se muito a realização de casamentos exclusivamente civis. Eventuais julgamentos de padres, monges e freiras deixaram de ser da alçada da Justiça comum.
Em contrapartida, foi dada ao ditador a prerrogativa da indicação dos bispos, um direito concedido tradicionalmente à monarquia espanhola. Através da nomeação de adeptos da sua linha política para as cátedras pontifícias, Franco esperava obter uma ligação mais estreita dos bispos com o Estado e impedir qualquer oposição ou simpatia com a oposição – por exemplo, com os movimentos de autonomia no País Basco ou na Catalunha.
Passo para reconhecimento internacional
Roma aprovou tal acordo, que na verdade contrariava a sua política, porque Pio 12 tinha grande conformidade com a política eclesiástica de Franco. Para o ditador, a concordata significou uma espécie de justificativa tanto para a política interna como para a política exterior.
Ela atuou como um aval da Igreja Católica para o Estado espanhol e foi um passo decisivo para romper o isolamento internacional do regime de Franco. Depois disto, os EUA assinaram uma aliança econômica e de defesa com a Espanha no outono setentrional de 1953. Dois anos depois, a Espanha foi aceita na ONU.
Rachel Gessat (am)
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Há 25 anos, Tchecoslováquia se dissolvia de forma pacífica

Separação de tchecos e eslovacos foi selada num dia quente de verão em Brno, numa conversa entre dois líderes – bem ao contrário do fim de um outro Estado, surgido em condições semelhantes.
Vaclav Klaus e Vladimir Meciar debatem na Vila Tugendhat Villa, em Brno
Vladimir Meciar (e) e Vaclav Klaus durante as conversações de 26 de agosto de 1992, nos jardins da Vila Tugendhat
O 26 de agosto de 1992 foi um dia quente de verão na cidade tcheca de Brno. Nos jardins da famosa Vila Tugendhat, um marco da arquitetura moderna na Europa, à sombra de um velho plátano e bebendo uma água mineral, os primeiros-ministros da Tchéquia e da Eslováquia, Vaclav Klaus e Vladimir Meciar, debatiam a dissolução pacífica do Estado tcheco-eslovaco.
À noite, eles se dirigiram à imprensa e declararam que, a partir de 1º de janeiro de 1993, a Tchéquia e a Eslováquia passariam a ser dois Estados independentes.
"Mesmo que muitas pessoas tenham ligações emocionais à atual Constituição, devemos afirmar, de forma realista e responsável: não há como manter a atual situação", afirmou Meciar, na época.
Destruição em Sarajevo
Aquele dia foi quente também em Sarajevo, mas não só por causa do verão. Havia quase cinco meses que a cidade estava sitiada por soldados sérvios bósnios, diariamente eles atiravam com canhões a partir dos morros ao redor sobre as residências no vale.
Naquela madrugada, eles haviam alvejado a Vijecnica, a antiga sede do governo local, na qual a biblioteca nacional da Bósnia-Herzegovina estava acomodada. O prédio estava em chamas, e apenas as paredes externas ficaram de pé.
Em poucas horas, grande parte do acervo estava em chamas, ao todo mais de 2 milhões de livros e documentos. Mais do que isso: naquele dia desapareceram inúmeras atestados de uma tradição secular de uma sociedade multicultural, e um símbolo de uma convivência pacífica e civilizada de etnias, culturas e religiões.
Já estava claro que a guerra na Bósnia seria sangrenta e cruel. Com a biblioteca nacional de Sarajevo, extinguiu-se também a esperança de que a desintegração da Iugoslávia fosse possível sem uma grande guerra.
No mesmo dia, em Londres, o primeiro-ministro britânico, John Major, abriu a conferência sobre a Iugoslávia. A principal exigência era o fim imediato de todos os conflitos na Bósnia-Herzegovina.
Dos destroços da monarquia
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Marionetes tchecas e eslovacas tornam-se Patrimônio Cultural da Unesco

Tchecoslováquia e Iugoslávia, dois estados que, no verão europeu de 1992, estavam deixando o cenário internacional de formas tão diferentes, haviam surgido em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial, sob condições muito semelhantes, a partir dos destroços do Império Austro-Húngaro. Nos dois casos, o objetivo era o mesmo: unificar em um Estado independente povos diferentes, mas ainda assim em muitos aspectos próximos, bem como várias minorias nacionais que viviam nesses territórios.
A Tchéquia, como território de indústria avançada e rica tradição cultural, desempenhava um papel importante já dentro da monarquia dos Habsburgos. Ao lado de Viena e Budapeste, Praga era, de cerca forma, a terceira capital. Quando se tornou claro, em 1918, que a monarquia não resistiria à guerra, os dois líderes do movimento nacionalista tcheco, Tomás Masaryk e Edvard Benes, exigiram independência total. Em conjunto com os representantes do movimento nacionalista eslovaco, eles acertaram a fundação de um Estado comum.
Assim, a Tchecoslováquia declarou sua independência ainda antes do fim da Primeira Guerra, com Masaryk como primeiro presidente. Mas esse Estado comum não era de forma alguma homogêneo: de seus 14 milhões de habitantes, 7 milhões eram tchecos, 2,5 milhões eram eslovacos e mais de 3 milhões, alemães dos Sudetos. A eles somavam-se várias minorias, como húngaros, ucranianos e poloneses.
Revolução de Veludo, em 1989
Multidão sai às ruas de Praga durante a Revolução de Veludo, em 1989
Busca por independência
Mas, apesar de, desde o início, a criação de uma população nacional, tcheco-eslovaca, ter sido proclamada, e de as minorais terem recebido a garantia de direitos especiais, os dois pontos nunca passaram de ideologia oficial. Na realidade, o domínio dos tchecos, que eram numérica, cultural e economicamente superiores, era perceptível o tempo inteiro.
Depois da queda do Muro de Berlim e da Revolução de Veludo, em 1989, os anseios por independência se tornaram cada vez maiores, especialmente na Eslováquia – seria a primeira vez desde o século 11, quando a nação foi integrada ao Reino da Hungria, que ela seria independente. Depois das eleições parlamentares de 1992 foi formado apenas um governo de transição, enquanto Klaus e Meciar iniciavam suas conversações sobre uma dissolução pacífica do Estado comum.
Desintegração brutal
A história da Iugoslávia, embora tenha começado de forma semelhante, desenvolveu-se de maneira completamente distinta. Também aqui a ideia inicial era unificar em um Estado povos diferentes, mas aparentados, junto com os territórios por eles habitados. E também aqui foram unidos povos que já tinham um rei, como os sérvios, e aqueles que nunca tiveram um Estado próprio ou que mal podiam se lembrar dele, como eslovenos e croatas. Ao mesmo tempo, também nessa construção assimétrica foi proclamada a igualdade de direitos de todos os povos constituintes, e garantidos direitos às minorias.
Mas, também neste Estado, que, ao longo de sua história, passou por uma transformação de monarquia para república socialista, muitos se sentiram inferiores. E também a construção de uma nação iugoslava permaneceu, apesar de todas as tentativas, infrutífera. Bastou uma crise constitutiva estremecer a nação para que a Iugoslávia se desintegrasse politicamente em grupos étnicos. Pouco depois, começou-se a redesenhar os mapas com uma brutalidade extrema, para em seguida adequá-los aos mitos nacionais, reavivados e excludentes.
Dois caminhos diferentes
O resultado é conhecido. Quando, na noite de 26 de agosto de 1992, depois de terem conversado minuciosamente nos jardins da Vila Tugendhat ao longo do dia, Klaus e Meciar se dirigiram à imprensa para anunciar a data da dissolução do Estado, o premiê tcheco disse:
"Se o planejado processo for executado de forma pacífica, creio que poderemos ter relações melhores e mais duradouras do que as atuais com a Eslováquia." 
Essa declaração mostrou ser acertada. As relações políticas, econômicas e culturais desses dois Estados independentes são exemplares.
A Iugoslávia, ao contrário, foi fragmentada numa guerra brutal, que deixou centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e uma enorme destruição. Mais de 20 anos depois do fim da guerra, a Bósnia-Herzegovina continua sendo uma nação pobre, disfuncional e extremamente dividida. A biblioteca nacional de Sarajevo foi reconstruída, mas os livros e documentos históricos que foram queimados na guerra se perderam para sempre.
  • Data 26.08.2017
  • Autoria Zoran Arbutina (as)
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sábado, 26 de agosto de 2017

Anais do V Simpósio do GTHRR/Regional Sul é disponibilizado

V Simpósio do GT História das Religiões e Religiosidades Regional Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) - ANPUH

"Transe, êxtase e possessão nas religiões e religiosidades" 
Passo Fundo/RS

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

1950: Aliados dissolvem poderoso conglomerado químico alemão

Em 17 de agosto de 1950, os Aliados dissolvem o poderoso conglomerado IG Farben, que lucrou com o trabalho forçado dos prisioneiros dos campos de concentração e a fabricação de produtos para a máquina de guerra nazista.
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Associação incluía grandes como Bayer, Basf e Hoechst
"A indústria alemã nos deve algo pela forma como nos obrigou a trabalhar durante o nazismo", conta um sobrevivente. "Éramos tratados pior que escravos, usados e jogados fora, queimados com o lixo", relata outro.

"Os trabalhadores forçados morriam trabalhando. Isso fazia parte do programa nazista de execução pelo trabalho." São palavras do promotor norte-americano Benjamin Ferencz diante do Tribunal de Nurembergue, que julgou crimes nazistas logo depois da guerra.

Muitas das grandes empresas da Alemanha se tornaram poderosas graças aos lucros que obtiveram durante o regime de Hitler: com os trabalhadores forçados e a fabricação de produtos para a máquina de guerra nazista. A indústria automobilística está entre as beneficiadas. Outro caso é a Siemens, que durante o nazismo ascendeu ao posto de mais poderosa empresa de eletroeletrônica da Alemanha.

União gerou maior empresa do mundo

Durante a Primeira Guerra Mundial, as oito principais indústrias químicas da Alemanha haviam se unido numa associação a fim de defender seus interesses. Até que, no dia 25 de dezembro de 1925, tornaram-se uma sociedade anônima, formando a maior empresa química do mundo.

Sem a ajuda destas indústrias, a máquina de guerra nazista não teria funcionado. Elas fabricavam desde aviões até granadas, respondiam por toda a produção de borracha e de quase a metade da gasolina sintética usada por Hitler. Também o gás letal usado nos campos de concentração era produzido por uma empresa na qual o conglomerado tinha grande participação.

Em 1944, foi construído um parque industrial do IG Farben nas proximidades do campo de concentração de Auschwitz, que explorou o trabalho de cerca de 20 mil prisioneiros. A temida SS de Hitler recebia quatro reichsmark por dia pelo trabalho de cada prisioneiro. Os poucos sobreviventes carregam sequelas até hoje, principalmente os que foram usados como cobaias pela indústria.

Executivos condenados

Alguns dos dirigentes destas empresas foram julgados no Tribunal de Nurembergue. Nenhum dos poucos condenados continuava preso em 1951. Depois da guerra, em 1945, o controle do conglomerado foi dividido entre as quatro potências vencedoras, que visavam ao desmonte da maquinaria de guerra.

No dia 17 de agosto de 1950, o antigo conglomerado foi dividido em três grandes empresas: Bayer, Basf e Hoechst. Seus lucros nos anos seguintes passaram a ser tão altos, que, no final da década de 50, entidades judaicas as obrigaram a pagar 30 milhões de marcos de indenização aos trabalhadores forçados judeus. Não judeus vítimas do trabalho forçado não receberam nada.
  • Autoria Michael Marek (rw)
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Zeitgeist: Arábia Saudita, wahhabismo e o "Estado Islâmico"

A interpretação fundamentalista do islã que é a religião "de facto" do reino saudita é também a base ideológica da milícia extremista. Confira na coluna desta semana, por Alexandre Schossler.
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Militantes seguram bandeira do "Estado Islâmico" no Iraque
Para entender as origens ideológicas da milícia extremista "Estado Islâmico" é necessário voltar ao ano de 1744, quando o clérigo radical Muhammad ibn Abd al-Wahhab selou uma aliança com Muhammad ibn Saud, o emir da pequena cidade de Diriyah, no deserto da Arábia.
O pacto previa que Ibn Saud protegeria e propagaria os ensinamentos de Wahhab, ao passo que este daria legitimidade religiosa ao poder daquele, e foi selado com o casamento de um filho de Ibn Saud com uma filha de Wahhab. Bem-sucedida, a aliança está na origem do que é hoje conhecido como o primeiro reino saudita, que durou de 1744 a 1818. Os descendentes de Wahhab, a família Al ash-Sheikh, é até hoje a segunda em prestígio na atual Arábia Saudita e a principal do uluma, o órgão dos sábios religiosos.
A interpretação do islã feita por Wahhab – que se baseava nos ensinamentos de um clérigo do século 14, Ibn Taymiyyah – era monoteísta, exclusivista, censora e fundamentalista. Wahhab detestava todas as formas de idolatria, como a adoração de monumentos religiosos, a crença em santos, o cultivo de superstições e as peregrinações religiosas. Ele pregava uma adoração monoteísta e livre de qualquer tipo de "inovações".
Estudiosos disputam se a interpretação radical do conceito de takfir (a prática de declarar outro muçulmano como kafir, ou infiel – no caso do wahhabismo, qualquer um que não siga a doutrina) data do tempo de Wahhab. Mas é certo que ele foi incorporado ao wahhabismo nas suas primeiras décadas, bem como o consequente castigo de matar os kafir, violar suas esposas e filhas e confiscar suas posses. A abordagem "conversão ou morte" para os infiéis também data dos primórdios da doutrina.
Aqui, as semelhanças com a ideologia do "Estado Islâmico" já se tornam evidentes e, de fato, os livros de Al Wahhab são distribuídos nos territórios controlados pela milícia.
O primeiro reino saudita acabou em 1818, e o wahhabismo ficou limitado à sua região original, o Najd (a área central da atual Arábia Saudita). Ele voltou a ganhar força e se expandir a partir de 1901, quando um descendente de quinta geração de Muhammad ibn Saud, Abdul-Aziz Ibn Saud, começou uma campanha militar para retomar o domínio de sua família na região, o que levaria à fundação do atual Reino da Arábia Saudita, a partir dos escombros do Império Otomano.
Na sua campanha militar, Ibn Saud se aliou aos guerreiros ikhwani, basicamente beduínos que haviam se convertido ao wahhabismo. Essa aliança foi bem-sucedida e resultou nas conquistas de Najd e Hejaz, regiões que em 1932 seriam unificadas no Reino da Arábia Saudita. Mas o expansionismo dos ikhwani, que atacaram os protetorados britânicos da Transjordânia, do Iraque e do Kuwait, não tinha o apoio de Ibn Saud, pois eles se voltavam contra a potência da época, a Grã-Bretanha.
Ibn Saud queria o apoio da Grã-Bretanha. Mais tarde, quando o petróleo foi descoberto, ele queria também vender o produto para o Ocidente, especialmente os Estados Unidos. Ele também queria introduzir novidades tecnológicas no seu reino, como o telégrafo, e adotava uma abordagem menos rígida e mais pragmática em relação a outras correntes do islã, o que se chocava com os ensinamentos wahhabistas.
Já os ikhwani se opunham ao estilo modernizador, pragmático e pró-Ocidente de Ibn Saud. O conflito resultante, a Batalha de Sabilla, em 1929, acabou com a derrota dos ikhwani, que lutavam com espadas e camelos, pelas forças de Ibn Saud, que usavam metralhadoras.
Esse embate inaugurou o que seria uma contradição inerente ao Reino da Arábia Saudita: entre a modernização e ocidentalização, representada pela família real, e o puritanismo ideológico radical wahhabista, na sua condição de religião de Estado de facto. Frequentemente os religiosos wahhabi, reunidos na uluma saudita, são acusados por grupos mais radicais de advogarem uma versão corrompida do wahhabismo, deixando de lado posições originais centrais e focando na obediência à família real – servindo, assim, aos interesses da monarquia.
O "Estado Islâmico" compartilha dessa crítica e pode, assim, ser visto como um retorno às origens do wahhabismo e também como uma milícia radical na tradição dos ikhwani e, portanto, uma ameaça a todo o reino saudita.
A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.
  • ata 26.07.2016
  • Autoria Alexandre Schossler
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Arquivo Histórico Regional vai à Escola!





Nesta terça-feira, 15 de agosto, membros da equipe do Arquivo Histórico Regional (AHR/PPGH-UPF) ministraram uma oficina aos alunos da Escola Estadual Professora Eulina Braga. A atividade foi articulada pelas professoras Valeria de Mello e Lisiane Gross em demanda ao AHR e foi realizada pelo acadêmico do curso de História e estagiário do Arquivo, Jeferson Hensel Zanon, em parceria com a ex-estagiária e acadêmica de História, Bruna Zardo Becker.

"Prática de Arquivo: Conservação e Gestão" foi a oficina realizada e tratou de cuidados básicos com conservação de documentos. Os membros do AHR apresentaram documentos, materiais e trataram da importância da conservação, conhecimento e produção de conhecimento com base no rico material dos fundos documentais existentes no Arquivo.

As oficinas ministradas pelo AHR são gratuitas, assim como as visitas guiadas ao Arquivo. Interessados devem entrar em contato pelo email ahr@upf.br ou pelo fone 3316-8516.

O AHR tem atendimento diário nos turnos matutino e vespertino no Campus III da UPF, junto à UPF Idiomas, com acesso pela Avenida Brasil. Toda pesquisa é irrestrita e gratuita.

domingo, 13 de agosto de 2017

Curso de História promove Oficina de Pesquisa e Ensino de História para finalistas do curso




O curso de História, em mais uma ação de qualificação formativa, deu início nesta quinta-feira, dia 10 de agosto, ao primeiro módulo da Oficina de Pesquisa e Ensino de História, sob condução do prof. Fabiano Chiesa.  A proposta da Oficina é analisar e atualizar competências de pesquisa e da docência em história, com base nas mais recentes reflexões e pesquisas historiográficas. Além dos elementos sociais, políticos e econômicos, enfatizam-se aspectos da história cultural nas sociedades e promovem-se diversos diálogos interdisciplinares através de atividades práticas, explica a profa. Ironita Machado, coordenadora geral da atividade.

A profa. Ironita ainda explica que a Oficina de Pesquisa e Ensino de História, voltada aos alunos que estão findando o curso, é constituída de 4 módulos que agrupam grandes temas, divididos em nestes encontros: informática, historiografia, metodologia da pesquisa e do ensino de história, e escrita historiográfica. Esta oficina apresenta as atividades de forma clara, buscando fazer ligações entre os conhecimentos dos alunos e visa dialogar com as diversas disciplinas em curso, transversalisando numa perspectiva de formação integral e  global. Desenvolver-se-á pela metodologia de interpretação, síntese e escrita histórica, bem como atualização de temáticas de gênero, etnicidade, imigrações/migrações, religiosidade, meio ambiente, cotidiano, política, entre outros, sob atividades diversificadas e experimentais etc.

O programa contempla ainda três encontros distribuídos ao longo do semestre e conduzidos por professores, doutorandos do Programa de Pós-Graduação em História e também pela convidada, profa. Marlete Dietrich, do curso de Letras da UPF.

sábado, 12 de agosto de 2017

Comprando soldados: uma estratégia de recrutamento para a Guerra do Paraguai

Para dar conta do conflito que já durava quase dois anos, o Império do Brasil criou uma Lei que permitia a alforria de escravos em troca de serviço militar – e dinheiro para o “seu senhor”.

Por Denise Moraes
Quase dois anos de guerra já haviam se passado. As forças militares brasileiras, que tinham argentinos e uruguaios como aliados, estavam desorganizadas. Aquele ano fora particularmente difícil para os soldados no front: em abril de 1866 teve início a invasão ao desconhecido território paraguaio. Uma verdadeira guerra de posições. O deslocamento das tropas era demorado e custoso; o Exército brasileiro estava desarticulado. A derrota dos aliados na Batalha de Curupaiti, em setembro, evidenciaria o esgotamento de suas forças.
Longe do palco da “Guerra do Paraguai”, as autoridades brasileiras viam o recrutamento entrar em crise: após tantos meses de conflito, o ímpeto inicial de voluntariado estava arrefecendo. A esperança em uma solução rápida para a guerra desapareceu, deixando o alistamento cada vez mais difícil. Fugas, confrontos locais, brigas políticas, casamentos forjados e muitos outros problemas passaram a ser enfrentados pelos que buscavam soldados pelo país. As tentativas de forçar membros da Guarda Nacional a irem para os campos de batalha provocavam sucessivas reações. Na imprensa, as querelas envolvendo o recrutamento eram assunto rotineiro. 1
Foi nesse contexto que, em outubro de 1866, D. Pedro II enviou ao Conselho de Estado três quesitos para consulta. A primeira questão era a de se, caso prosseguisse a guerra, seria “conveniente lançar mão da alforria de escravos para aumentar o número de soldados do Exército”. O Imperador também queria saber quais escravos seriam “preferíveis para o fim de que trata o primeiro quesito, os da Nação, os das Ordens Religiosas ou os de particulares”. Por fim, a última pergunta do monarca era: “como realizar essa medida?”.2
Uma proposta ousada
A solução que D. Pedro II estava propondo era audaciosa e polêmica, pois tocava em dois temas importantes, sensíveis e, ao mesmo tempo, definidores do Brasil de então: a escravidão e a Guerra do Paraguai. Não à toa, a reunião para deliberar sobre os três questionamentos foi marcada para uma semana depois do envio dos mesmos pelo Imperador, que presidiu o encontro.
Por horas, membros do Gabinete Ministerial e membros efetivos do Conselho de Estado debateram sobre as possibilidades de recrutar os libertos e sobre as prováveis consequências de tal mobilização. O medo e a apreensão cercavam a fala da maioria dos conselheiros que estavam na sessão. Para Antônio Paulino Limpo de Abreu, por exemplo, o processo de manumissão deveria ser realizado com “discernimento e prudência”. José Antonio Pimenta Bueno também alertava para a necessidade de cautela, pois, na sua visão, o recrutamento de libertos poderia ser encarado como o princípio da emancipação geral dos escravos. O conselheiro Visconde de Itaboraí engrossava o coro dos temerosos: em seu voto, Joaquim Rodrigues Torres classificou a proposta de libertar escravos para a guerra como “impolítica, indecorosa, ineficaz ou para deixar de sê-lo, se tornará minimamente onerosa ao Tesouro Público”.3
Outros conselheiros insistiam na questão da segurança. O receio de que as alforrias incentivassem a movimentação de escravos pelo país esteve presente em diferentes votos. Afinal, ao propor uma medida de libertação dos cativos, mesmo que vinculada à atuação na guerra, o governo poderia, na opinião de alguns, estar fomentando fugas e sublevações pela abolição. Foi também recorrente o argumento de que a libertação de escravos para guerra traria sérios transtornos para a agricultura nacional. Retirar mão-de-obra das lavouras naquele período pós-proibição do tráfico internacional de escravos, sem a previsão de substituição da força de trabalho aterrorizava os grandes senhores e fazendeiros representados no Conselho de Estado. Não se pode esquecer que o café era, então, o principal produto brasileiro.  Mesmo o conselheiro Nabuco de Araújo, defensor do engajamento dos libertos, sugeriu que as alforrias acontecessem preferencialmente nas capitais, onde os escravos poderiam ser mais facilmente substituídos por braços livres.
Mas, apesar de todos os obstáculos colocados pelos conselheiros que eram contrários à medida, o caráter emergencial do recrutamento para o conflito no Paraguai pareceu guiar a decisão final. No dia seguinte à sessão, 6 de novembro de 1866, o decreto nº 3.725 concedeu liberdade gratuita aos escravos da nação que pudessem servir na guerra. Mas um dos pontos de tensão – que era o cuidado para com os senhores de escravos – não foi deixado de lado. Na prática, tal determinação abriu espaço para que os senhores vendessem seus escravos para o governo com esta finalidade.
No início de 1867, os primeiros grupos de escravos comprados pelo Império foram encaminhados para o Exército e a Marinha do Brasil. Homens que, repentinamente, viram chegar suas cartas de alforrias, seus uniformes e a missão de defender a pátria que até então lhes negava a cidadania.
O negócio da guerra
Um desses homens foi o baiano Raimundo. Em junho de 1867, ele, que era então escravo do fazendeiro Manoel Cruz Pinto, saiu pelas ruas da Freguesia de Vera Cruz carregando um pedaço de papel. No bilhete, um aviso de Manoel dizia que Raimundo tinha licença para procurar outro senhor, já que o escravo mostrava “não estar satisfeito com o cativeiro” de Manoel, que completava a mensagem: “quem pretender comprar, vá a minha casa que me achará para contratarmos o preço”.4
A quantia que o governo pagou pelo cativo acabou sendo maior do que a que fora oferecida a princípio. Manoel recebeu um conto e quatrocentos mil réis do Império e o escravo foi então alforriado. A partir dali, Raimundo deixaria o cativeiro indesejado, mas a liberdade, tão almejada, não seria plena afinal. A carta de alforria não lhe garantiu o direito de se deslocar para onde quisesse ou de fazer o que bem entendesse. Como muitos outros escravos do Brasil, Raimundo foi comprado e libertado com um objetivo específico: ingressar na luta contra as forças paraguaias.Duas semanas depois de deixar a fazenda de Barra Grande, Raimundo retornou com uma reposta para o fazendeiro. Ao final de seu bilhete, Manoel percebeu que haviam rabiscado outra mensagem: “O governo dá um conto e duzentos mil réis em apólices com a condição de assinar a carta de liberdade. Querendo, há de vir ou mandar procurador para tratar o negócio”.5
A alforria de escravos comprados pelo governo não foi a única forma de inserção dos cativos na guerra. Doações e substituições também aconteceram. Mas a análise da documentação de compra dos escravos permite concluir que, em muitas províncias, ela foi um instrumento significativo de recrutamento militar nos anos de 1867 e 1868.
Encarregados do Império geriam a compra dos escravos nas províncias. Na Bahia, por exemplo, Pedro Joaquim de Vasconcelos, fixado no Arsenal da Marinha de Salvador, publicava anúncios nos jornais locais convidando possíveis vendedores a encaminharem seus escravos para o serviço militar. A exemplo do que aconteceu em outras cidades brasileiras à época, o negócio da venda de cativos para a guerra agitou a praça de Salvador. Além do representante do governo, dos escravos e dos respectivos proprietários, boa parte das negociações envolvia também a figura do procurador. Isso mostra que a compra de soldados pelo governo brasileiro durante a Guerra do Paraguai não foi uma opção de negócio apenas para os senhores, mas também para seus procuradores, os quais constituíam redes, buscando, no interior, escravos que pudessem ser vendidos nas capitais.
Soldados libertos 
Depois de vendidos, alforriados e examinados por uma junta médica, os libertos viravam soldados. Deslocados pelas necessidades da guerra, muitos eram obrigados a deixar para trás a cidade natal, os laços e a família. Em alguns casos, saíam da agricultura diretamente para o cenário de guerra. Um levantamento feito a partir das alforrias de quase 430 escravos da Bahia permitiu concluir que a maioria era declaradamente do “serviço da lavoura” ou vinha da zona rural. Outras atividades apareciam em menor número: cozinheiros, calafates, alfaiates, vaqueiros e de ganho. Tinham entre 16 e 35 anos; a maior parte, sem identificação do estado civil. Ao serem recrutados, escolhiam ou eram induzidos a adotar sobrenomes. E seguiam para a Corte em embarcações da Marinha, a qual foi, em verdade, o principal destino dos que saíram da Bahia.6
A proposta do Imperador, a aplicação da estratégia e as discussões ministeriais fazem parte do longo processo histórico de fim da escravidão no país, que envolveu disputas de poder e interesses. E neste processo, é importante observarmos as ambiguidades de cada momento. Para este o grupo de libertos baianos e para todos os outros que foram comprados e recrutados pelo Império nas demais províncias, por exemplo, as vendas significaram, sem dúvidas, uma alforria imediata. Significaram, ainda, a possibilidade de distanciamento do lugar do cativeiro para os que assim desejavam, como no caso de Raimundo. Por outro lado, a liberdade, para estes homens, veio limitada. Se a libertação do escravo era condição para a venda e para que fosse recrutado, a alforria, por sua vez, também estava condicionada. Ao serviço militar.

Notas
1 IZECKSOHN, Vitor. A guerra do Paraguai. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo (org). O Brasil Imperial II: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 402.
2 Atas do Conselho de Estado. 5 de novembro de 1866. Disponível em: www.senado.gov.br. Acesso em: 20/07/2017.
3 Idem.
4 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Coleção Documentos Navais. DL 1132.
5 Idem.
6 MORAES, Denise. Compram-se soldados! Os libertos da província da Bahia na Guerra do Paraguai. Dissertação (mestrado). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2016.

Fontes documentais:
Atas do Conselho de Estado. 5 de novembro de 1866. Disponível em: www.senado.gov.br.
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Coleção Documentos Navais. DL 1132.
Referências bibliográficas:
DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
IZECKSOHN, Vitor. A guerra do Paraguai. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo (org). O Brasil Imperial II: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
KRAAY, Hendrik. Slavery, citizenchip and military service in Brazil’s mobilization for the Paraguayan War. In Slavery and Abolition. 2008.
MORAES, Denise. Compram-se soldados! Os libertos da província da Bahia na Guerra do Paraguai. Dissertação (mestrado). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2016.
SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do Exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
SOUSA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad, ADESA, 1996.

Denise Moraes é doutoranda em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Tem mestrado e graduação em História pela mesma universidade, além de graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro do Grupo de Estudos do Século XIX (GREXIX), da UNIRIO.

Como citar este artigo
MORAES, Denise. Comprando soldados: uma estratégia de recrutamento para a Guerra do Paraguai (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em:http://www.cafehistoria.com.br/comprando-soldados-guerra-do-paraguai. Publicado em: 31 Jul 2017. Acesso: [informar data].

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

II Seminário do Núcleo de Estudos Históricos do Mundo Rural


O Núcleo de Estudos Históricos do Mundo Rural (NEHMuR), um grupo de pesquisa ligado ao Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Uviversidade de Passo Fundo, reuniu-se na tarde de 9 de agosto/2017 para discutir o livro "Terra prometida", de Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira da Silva, lido previamente pelos integrantes do grupo.

O Núcleo é composto por professores, estudantes bolsistas da graduação em História, mestrandos e doutorandos do PPG em História da UPF, da Universidade Federal de Santa Catarina e da UnoCHAPECÓ. Ele tem uma página no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq:

http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/9076653495940625

A próxima reunião do grupo, o III Seminário, acontecerá em novembro de 2017 e incluirá uma visita de estudos.