quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Cinema visto pela História: notas sobre o desenvolvimento de um campo

O século XX foi transformado pelo Cinema e o campo historiográfico não ficou imune. As imagens projetadas pelos cinematógrafos ao redor do mundo criaram uma arte e uma indústria – e uma nova forma de pensar a História.

Por Rafael Hansen Quinsani
Quando o Cinema passou a frequentar a sala de aula, pipocaram reclamações sobre a “concorrência desleal” e o aumento da responsabilidade dos professores, que agora precisavam “corrigir os filmes” que ameaçavam a “História verdadeira”. A ideia de que os historiadores têm o trabalho de expor os fatos do passado, de preferência “como realmente aconteceram” (fórmula famosa – e por vezes mal-compreendida – utilizada pelo historiador alemão do século XIX, Leopold von Ranke)1, obliterou o olhar sobre as formas narrativas, sua constituição e tensões.
Quando se rompe o isolamento da História com o Cinema, contudo, percebemos que o exame do discurso histórico a partir de outras formas narrativas não só levanta questões inquietantes, mas também pode enriquecer o conhecimento do meio acadêmico. Dessa forma, questionamentos sobre a construção do sentido do passado, a constituição visual das sociedades modernas e o relacionamento de múltiplas temporalidades tornam o debate mais complexo e frutífero. Neste artigo, pretendo historicizar marcos da relação História-Cinema, analisando as mudanças que se passaram e as diferentes contribuições para as reflexões do nosso tempo.
A construção da relação Cinema-História
A história cinematográfica foi se constituindo paulatinamente ao longo do século XX, tecendo relações com o campo acadêmico e social. A reflexão sobre o cinema teve início com os seus próprios realizadores, uma tradição filosófica que pode ser caracterizada como formativa, pois não havia precedentes na sua realização. Após a década de 1920, as reflexões começam a valorizar os elementos artísticos do cinema e ampliando a reflexão para além dos elementos técnicos2. Neste momento, vinham do Oriente novas teorias que revolucionariam o pensamento sobre o cinema.
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Cinema e História: uma relação há estabelecida. Foto: Pixabay.
No início do século, a União Soviética (URSS) foi responsável por centralizou análises inovadoras centradas na questão da montagem cinematográfica. O encadeamento de fotogramas se compunha como centro da construção da linguagem cinematográfica, influenciando roteiros, cenários e atuações. Foi Lev Kuleshov o primeiro teórico que sistematizou os fatores constitutivos da teoria da montagem, formulada a partir de observações empíricas sobre a reação da plateia a filmes de diferentes nacionalidades. Mas sem dúvida, o grande nome da teoria da montagem foi Sergei Eisenstein. Seus livros mais conhecidos são A forma do filme e O sentido do filmeEisenstein concebia a cinematografia antes de tudo como montagem. Ele, inclusive, procurava identificar o princípio básico da montagem cinematográfica fora do cinema, como, por exemplo, os elementos que constituem a cultura visual japonesa e a constituição dos hieróglifos da poesia do Haikai.
Em pouco tempo, a ampla penetração do cinema em diversas classes sociais atraiu para si o interesse do campo científico. Retornando para a Europa, o foco se deslocou para o viés realista, que tratou de questionar as posições formalistas. Na França, o crítico André Bazin valorizou o poder das imagens registradas mecanicamente e deu início a uma tradição crítica que seria o berço das futuras reflexões dos anos 1960, como a revista Cahiers du cinema.
Oriundo da chamada Escola de Frankfurt, (corrente de pensadores que articularam uma crítica social a partir do Marxismo e da psicanálise) Siegfried Kracauer (1899-1966) foi um dos mais destacados nomes a trabalhar com o cinema. Sua obra “De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão” e os vastos volumes de “Theory of Film” foram seminais na divulgação dos estudos sobre cinema. A análise de Kracauer estava ancorada pelo referencial da ideologia, e sua obra “De Caligari a Hitler” busca compreender como os filmes podem representar uma mentalidade coletiva de uma nação tomando como exemplo a Alemanha dos 1930 e a formação do nazismo. Ao registrar aquilo que é da ordem do visível, o cinema permite encontrar uma chave de acesso ao oculto e a uma mentalidade. Estudando diversos filmes alemães, Kracauer buscou demonstrar nos figurinos, nos cenários, na fotografia, na constituição do roteiro elementos que prenunciavam a formação do nazismo na sociedade alemã.
Na década de 1970, por sua vez, o historiador Marc Ferro (1924-) revolucionou a abordagem do tema ao dar início ao que podemos denominar de campo Cinema-História. Sua proposta tinha como eixo uma metodologia e ainda trazia eco da presença da ideologia das análises marxistas ao propor a realização de uma contra-análise da sociedade pelo Cinema. Para Ferro, o filme não é só um produto, mas um agente da história, porque a imagem cinematográfica vai além da ilustração: no seu verso está expressa a ideologia dos realizadores e da sociedade. Constitui-se, então, a contra- análise, que busca desvelar o não visível, os silêncios selecionados pela história e pelo historiador. Na sua proposta, a ideologia encontra-se na base de sustentação do conteúdo apresentado por um filme. Real e ficção se formam e transitam a partir destas bases. A análise do conteúdo aparente de suas imagens e sua crítica a partir do cruzamento de outras fontes permite desvelar o conteúdo latente, a zona de realidade não visível, composta pelos elementos transpostos conscientemente ou inconscientemente pelos realizadores do filme. Também salienta que, além de tornar-se um agente, o cinema também motiva a tomada de consciência histórica, criando uma memória fílmica.
Historiador da Revolução Russa, Ferro não teve em um primeiro momento uma boa acolhida ao querer se dedicar ao Cinema. O historiador francês Fernand Braudel chegou a desestimulá-lo. Entretanto, seu ensaio “O filme, uma contra-análise da sociedade?”, publicado no famoso periódico Annales, lançou as bases de uma revolução.
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Cena do filme “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Sergei Eisenstein – Reprodução
Contudo, ainda era uma revolução conservadora, pois a relação Cinema-História foi recortada a partir do lugar disciplinar, e esta operação historiográfica definiu o objeto segundo padrões de pertencimento dos historiadores. Havia o temor, o preconceito e a preguiça de traçar um diálogo com as questões estéticas e os campos que a abordavam. Da ideologia ocorreu um deslocamento para o emprego do conceito de representação, alavancado pelo avanço da História Cultural. Todavia, o conservadorismo ainda marcava fortemente a disciplina histórica e o temor dos elementos estéticos também marcava este novo campo.
Foi ao longo das décadas de 1980 e 1990, e, principalmente, do século XXI, que os elementos estéticos cinematográficos ganharam corpo nas análises realizadas. Como exemplifica o professor Francisco das Chagas Júnior: “Expulsa pela porta, a estética entra pela janela como um espectro que redefine os territórios dos historiadores”.
Contribuições para a sala de aula
Mais recentemente, o historiador norte-americano Robert Rosenstone tem dado grandes contribuições para o aprofundamento do campo e o fomento do debate. Partindo de experiências da sala de aula e da participação na realização de documentários e ficções, Rosenstone aponta que a possível concorrência da visão histórica cinematográfica na busca por alcançar a sociedade é o principal fator para os historiadores temerem o cinema. Um filme narra, explica e apreende acontecimentos individuais, coletivos, sociais, psicológicos e históricos. Seu objetivo é entreter, mas na sua constituição faz uso de argumentos racionais e de todos os ingredientes da vida, das carências de orientação do ser humano.
Portanto, segundo Rosenstone, para além da análise do cinema como atividade artística e do filme como documento, o cerne do questionamento deve partir de como o meio audiovisual pode nos fazer refletir sobre nossa relação com o passado, sendo pensado como uma nova forma de reconstrução histórica capaz de alterar a concepção e o conceito de História que temos. Isso implica aceitar que o cinema pode transmitir o tipo de História com H maiúsculo. “Trata-se de uma questão arriscada, pois mudar a mídia da história significa mudar igualmente a mensagem […] o passado contando por imagens em movimento, não elimina as antigas formas de história”.
Compreender a constituição da narrativa, a importância dos elementos estéticos e as conexões entre razão e emoção torna-se, assim, fundamental para enriquecer o campo teórico, integrar a ciência ao campo social e se pensar historicamente o século XXI. 
Nesse sentido, pesquisas e iniciativas como as do crítico de cinema francês Alain Bergala, que defende a presença da sétima arte nas escolas não só para explorar técnicas de produção e conteúdos curriculares, mas para discutir também questões universais, inserem a educação cinematográfica e a produção de obras como fundamentais para a inovação da educação do século XXI. No Brasil já surgem diversas iniciativas para potencializar a produção cinematográfica na escola. O projeto “Primeiro filme” da produtora Prana filmes realizou diversas oficinas de capacitação com professores e estudantes, inclusive oferecendo material didático e organizando um festival com obras realizadas nas escolas do Rio Grande do Sul. Neste Estado, munícipios como São Leopoldo e Alvorada realizam festivais de cinema com filmes produzidos nas redes escolares.
Avanço nos estudos, mas pouco traduzidas para o português
Pensar a relação Cinema-História como um paradigma permite refletir sobre o próprio meio acadêmico e arejar uma disciplina ainda conservadora. A escrita cinematográfica possibilita uma linguagem capaz de, na sua exposição, fundir dialeticamente a multiplicidade dos tempos históricos, auxiliando os historiadores a ampliar sua capacidade de produzir conhecimento e potencializar sua transmissibilidade.
Nos últimos anos, foram formadas cátedras, disciplinas, linhas de pesquisa relacionadas ao tema em diversas universidades em vários cantos do mundo. Autores como Pierre Sorlin, Michele Lagny, Jorge Nóvoa, Alcides Freire Ramos, Eduardo Morettin realizaram trabalhos fundamentais. Contudo, muitos trabalhos estrangeiros ainda não foram traduzidos para o português. Um exemplo é a obra “Writing history in film, de William Guynn. “Escrever a História em filme”, como apresenta o título (em tradição para o português), implica pensar um novo patamar da relação Cinema-História: a questão da narrativa, da pesquisa e a relação do campo acadêmico com os demais meios de produção historiográficos.
Esperamos que mais obras sobre o tema sejam traduzidas para que enriqueçam nossas discussões e práticas – dentro e fora da sala de aula. Mas neste breve artigo, já deixo um convite para que nós, historiadores, especializados ou não em Cinema, Arte e Cultura, nos aproximemos da cinematografia de temática histórica. E sem medo.

Notas
A ideia de “mostrar o que realmente aconteceu” foi usada por Ranke no livro “História dos povos latinos e germânicos de 1494 a 1514”. Júlio Bentivoglio, no entanto, lembra que Ranke jamais se limitou a produzir uma história factual ou sugeriu que os fatos falassem falavam por si só. Joseph Fontana também defende Ranke, dizendo que “a frase foi tirada de contexto injustificadamente e interpretada como uma declaração metodológica” (In: Lições de História, de Jurandir Malerba). A frase completa é: “A história escolheu para si o cargo de revelar o passado e instruir o futuro para benefício das gerações futuras. Para mostrar aos altos oficiais o que o presente trabalho não pressupõe: ele busca apenas mostrar o que realmente aconteceu”.
2 Já em 1916 Hugo Munsterberg publica a obra The Photoplay: a psychological study. Sua análise divide as observações sobre o cinema entre a história tecnológica e a evolução do uso do cinema.

Referências Bibliográficas
FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
GUYNN, William. Writing history in film. New Tork: Routledge, 2006.
JÚNIOR, Francisco das Chagas Fernandes Santiago. Entre a representação e a visualidade: alguns dilemas de relação cinema-história. Domínios da Imagem, Londrina, n. 1, p. 65-78, 2007.
KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LAGNY, Michele. Cine e História: problemas y métodos en la investigación cinematográfica. Barcelona: Paidós, 1997.
MALERBA, Jurandir (Ed.). Lições de história: o caminho da ciência no longo século XIX. EDIPUCRS, 2010.
NÓVOA, Jorge; BARROS, José D’Assunção. (orgs) Cinema-História: teoria e representações sociais no cinema. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.
NÓVOA, Jorge; FRESSATO, Soleni Biscouto; FEIGELSON, Kristian. (orgs) Cinematógrafo: um olhar sobre a História. Salvador: EDUFBA/UNESP, 2009.
RAMOS, Alcides Freire. Canibalismo dos fracos: cinema e história do Brasil. Bauru: EDUSC, 2002.
ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
SORLIN, Pierre. Sociología del cine: la apertura para la historia de mañana. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1985.

Rafael Hansen Quinsani é professor, Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem atuação na área de Docência e Pesquisa. Dedica-se a área de Cinema-História, Ensino de História, Teoria e Metodologia, História da América Latina e História contemporânea.

Como citar este artigo
QUINSANI, Rafael Hansen. O Cinema visto pela História: notas sobre o desenvolvimento de um campo. (Artigo) In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/cine-historia/. Publicado em: 25 dez. 2017. Acesso: [informar data].

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